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Publicado em 12/08/2019

O duro trabalho de preservar e morar na Mata Atlântica

Em SP, movimento por moradia cria viveiro urbano para cultivo de espécies nativas e desmente o mercado imobiliário: é possível construir com consciência ambiental – e ainda estimular a economia criativa da região

Por Rôney Rodrigues| Fotos: Carolina Simon

Enxadas e facões cortam o mato alto. São cerca de 20 homens e mulheres que capinam, debaixo do já ardido sol das onze da manhã, uma densa vegetação. Outros empilham as pedras e o mato recém-ceifado. Em uma cozinha próxima, também organizam o almoço coletivo que será servido em breve. Sebastião de Souza Cambuí, empapado de suor, descansa com os braços apoiados em sua enxada.

“Ufa”, bufa ele, enquanto retira uma espessa camada de transpiração da testa. “Mas o bom é que todos aqui estão trabalhando felizes. Vamos capinar até onde o sol bater porque as plantas precisam é disso: sol. E água”.

“Não está duro o trabalho?”, alguém pergunta, desconfiado do entusiasmo de Sebastião.

“Rapaz, estamos unidos”, justifica ele. “E, quando tem união, não tem nada difícil. União faz a força, como se diz por aí”, diz, gargalhando com o clichê. Mas, ao final, confessa: “agoratrabalho-trabalho sempre tem demais. Veja só você: a gente teve que destocar uma trouxera de bananeira e replantar ela toda de novo. Trabalheira! Mas, pelo menos, se faltar comida, a gente tem banana pra comer”, e abre o largo sorriso.

Estamos em Guarapiranga, zona sul de São Paulo, em um terreno conquistado pelo Movimento Pelo Direito à Moradia (MDM) para a construção de moradias para cerca de 500 famílias de baixa renda. Esse empreendimento para habitação de interesse social – em aprovação na Prefeitura – está localizado em uma área de preservação ambiental de Mata Atlântica — a cerca de 100 metros do Parque Ecológico e da represa Guarapiranga — e, para construírem as casas, a legislação exige uma compensação ambiental pelas prováveis retiradas de árvores. Embora essa região não seja tão adensada quanto a zona leste, por exemplo, tem várias conexões com áreas verdes, parques municipais e estaduais e bacias hídricas paulistanas.

Por isso, os integrantes do movimento, por meio de cursos e oficina ministrada por arquitetos e um engenheiro agrônomo, prepararam o terreno e iniciaram a construção de um viveiro urbano. Foram plantadas 100 mudas nativas da Mata Atlântica – ipê, quaresmeira, angico, manacá da serra, pitanga e kumbaya. A expectativa é que a iniciativa represente uma economia significativa ao movimento de moradia – segundo o arquiteto e urbanista William Yoshida, sem replantio, a entidade deveria desembolsar cerca de um milhão de reais – e, quando estiver operando plenamente, também gere uma fonte de renda para as famílias de baixa renda que viverão na região.

O cálculo de Yoshida, que participou da elaboração do projeto enviado à Prefeitura, é de que serão necessárias quase quatro mil mudas para quitar, legalmente, a “dívida com o meio ambiente”. Porém, a implantação desse viveiro não tem somente motivações econômicas.

“Queremos mostrar que esse terreno é deles e gerar pertencimento ao local com atividades de preservação como essa”, afirma

A ideia do projeto – que foi contemplado com uma parceria de fomento com o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (CAU/SP) – é que que essas famílias também forneçam mudas para outras áreas e ocupações que necessitarem cumprir com a legislação de compensação ambiental.

Enquanto nossa casa não chega

Enquanto descansa, após ajudar a capinar o terreno onde foi implantado o viveiro, a aposentada Luísa Mendes Silva, que com a filha aguarda ter acesso a seu direito à moradia, conta o quanto aprecia atividades como essa de “mexer com terra”.

“Nasci em São João Evangelista, em Minas Gerais, e desde menina sempre gostei de plantar, colher e capinar – isso que fizemos hoje é a minha cara! Sempre quisemos plantar aqui no terreno e estou vendo as pessoas muito felizes de, finalmente, podermos fazer isso – e, talvez, ainda ganhar uma fonte extra de renda”.

Junto com ela, está a doméstica Helena Maria da Costa, que sonha com uma casa com um quintalzinho – “pode ser bem pequenininho, mas que dê pra fazer uma hortinha”. Foi uma das participantes mais ativa da oficina e faz questão de destacar que um viveiro em Guarapiranga pode ajudar as pessoas a tratarem “com mais respeito o meio ambiente”.

“Esse trabalho é muito valioso – e tão bonito! Nos faz dar valor a essa região linda, cheia de matas e árvores, um riacho, que um dia estarão nossas casas. Eu por mim plantava só árvores de frutas – goiabeira, mangueira, abacateiro – e a gente já colocava um horta – e falo mais: se precisar de braço pra trabalhar, pode contar comigo”.

A espera pelo sonho da casa própria pode durar anos – ou até décadas. Se essa árdua e burocrática batalha – que depende do cumprimento de políticas públicas de habitação social, de pressão popular sobre políticos e funcionários públicos e de uma longa espera pela liberação de fundos de instituições estatais – frustra alguns que têm urgência para viver em um local salubre, por outro lado a latente especulação imobiliária em São Paulo, que eleva o aluguel até em regiões periféricas e força famílias inteiras a viver em áreas irregulares, não lhes dão alternativa a não ser continuar – como o caso dessas duas senhoras de enxada na mão, entusiasmada para construírem um viveiro em Guarapiranga que as coloca mais próximas desse sonho.

“Estamos aqui há 10 anos”, frisa Nilda Neves, coordenadora do MDM, enquanto olha saudosa, em um giro de 360º, o terreno. “E a gente cuida de verdade do terreno”.

Ela aponta para um riacho entre a vegetação.

“Olha ali”, pede. “Quando a gente veio para cá, essa nascente tinha peixinhos nadando e a água era limpinha. Agora, a água não está tão transparente, muita poluição dos vizinhos…”.

Nilda conta que, em todos esses anos, sempre batalharam pela preservação ambiental da área: promovem conversas e campanhas de conscientização para que os moradores do entorno não joguem lixo e dejetos na mata, nos rios e na lagoa.

“Até porque escorpiões e ratos podem ir para a casa deles e levar doenças e perigos”, lembra ela. “Nós seremos os futuros moradores daqui, ainda não vivemos nesse terreno, mas eles já moram! Então temos que nos juntar para preservar essa mata bonita que temos”.

Construir um viveiro, destaca ela, é despertar os atuais e futuros moradores para os problemas ambientais que aflige a região do Guarapiranga – e só um começo.

“Nosso povo sabe a luta que é conseguir moradia e, enquanto não a casa não chega, e mesmo depois, vamos plantar mudas de árvores da Mata Atlântica, vamos fazer hortas para uma alimentação mais saudável, vamos promover campanhas de respeito ao meio ambiente e, nesse trabalho de formiguinha, vamos mostrar que não é só moradia o que queremos, mas também qualidade de vida”.

“Temos uma responsabilidade com as famílias: não é só vir aqui e construir esses prédios”, explica a arquiteta e urbanista Tatiana Yamauchi Ashino, que também participou da formulação do projeto das moradias. “Temos que cumprir um papel com a cidade e o viveiro é simbólico por isso: os apartamento nem começaram a serem construídos, ainda estão no papel, mas a comunidade e os futuros moradores já têm essa responsabilidade com o entorno do empreendimento”.

Arregaçar as mangas

O projeto de construção de casas deve ser aprovado na Prefeitura até o final do ano. Mas isso é só umas das etapas. Depois vem a “briga” para conseguir financiamento da Caixa Econômica Federal – e é aí que as perspectivas ficam nebulosas.

“O atual governo não deu nenhuma reposta quanto ao Minha Casa, Minha Vida Entidades”, lembra o arquiteto Yoshida. “Essa é a faixa mais atingida pelo governo: não houve nenhum pronunciamento e só uma pequena verba, que daria para construir pouquíssimas unidades, foi liberada para todo o MCMV – e nem sabemos se chegará ao Entidades”.

Além disso, no começo do ano, o ministro do Desenvolvimento Regional, Gustavo Canuto, suspendeu contratações do Minha Casa Minha Vida feitas no final da gestão de Michel Temer. A construção de 17,4 mil novas unidades habitacionais para a população de baixa renda, em 12 estados, foi cancelada.

Sebastião, um dos esperam poder ter acesso a uma moradia pelo MCMV, retira suas luvas; está molhada de suor. Assim como sua camiseta e cabelos. Está cansado, mas, por algum motivo não compreensível, mantém uma disposição hercúlea. Enquanto caminha para a fila do almoço coletivo preparado na sede do MDM – macarrão com molho de carne moída – conta que trabalhar com terra está em seu sangue: avós e pais viviam em sítio, plantando e criando galinhas e gados.

Ele, em suas palavras, não teve a mesma sorte – sobrevive vendendo seus produtos de artesanato em madeira porque não consegue se aposentar e nem um emprego mais estável.

“A gente vai sobrevivendo, catando aqui, tirando dali. Você entende?”, pergunta ele. “ O mercado está caro e alugar uma casa pra viver mais ainda”.

Mas, ao menos, sua vontade de “trabalhar no campo” poderá ser sanada em partes com as atividades do viveiro – Sebastião, orgulhoso, anuncia que será um dos responsáveis pelos trabalhos cotidianos de manutenção do projeto.

“Arregaçar as mangas e pegar no batente nunca foi problema pra mim”, frisa ele. “E acho que nós mesmos que vamos ter que arregaçar as mangas e ir para cima porque não dá pra esperar pelo governo. Pelo que vejo, ele não está olhando muito pra gente, não! É justo eu pagar um aluguel – e caro – enquanto tem um espaço livre esperando a gente aqui?”, pergunta.

E, esperando uma resposta, insiste:

“Ou eu estou louco? Você não concorda comigo?”

Fonte: Outras Palavras

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